Terça-feira, 25 de Maio de 2010

O processo da traição. Por Amorim de Carvalho (in O Fim Histórico de Portugal, Ed. Prometeu).

O processo da traição

Por Amorim de Carvalho (in O Fim Histórico de Portugal, Ed. Prometeu)



Os comunistas e os socialistas portugueses falam dos 229 dias para abater o fascismo em Portugal, desde 9 de Setembro de 1973 até ao golpe de estado militar de 25 de Abril de 1974; isto é, desde o dia em que 136 capitães, tenentes e alferes, transportando-se burguesmente nos seus carros e em carros dos seus camaradas, se reuniram secretamente num palheiro de uma rica propriedade rural do Alentejo, pertencente à família de um deles, para falarem das suas reivindicações profissionais, até ao dia em que eles fizeram o golpe de estado. A História falará dos 229 dias da incubação da traição.

O golpe de estado de 25 de Abril, a que se chamou o «movimento dos capitães» e finalmente «Movimento das Forças Armadas» («M.F.A.»), começou por um descontentamento de tipo mercenário que abriu brechas na disciplina militar e que, a um certo momento, dada a extensão da indisciplina, procurou revestir-se de uma explicação política conferindo-lhe, aos olhos da nação, uma aparência de honestidade e de significação nacional.

Mostremos, com seus delineamentos de crua clareza, o que não chegou ao conhecimento do povo português e do estrangeiro, senão sob aspectos intencionalmente mal definidos ou muito furtivos ou moralmente disfarçados.

O número de cadetes, frequentando a academia militar donde saíam os oficiais do quadro permanente, diminuía consideravelmente, o que criava problemas, dada a existência da guerra no ultramar. A insuficiência de capitães e de oficiais subalternos obrigava o governo português, presidido pelo prof. Marcello Caetano, a recorrer aos oficiais antigos milicianos (isto é, quadro complementar) vindos da condição civil (estudantes universitários e alguns tendo mesmo já os seus diplomas de nível superior, os quais já tinham feito o serviço militar, participando na guerra do ultramar com o posto de alferes). Eles tinham sido postos na reserva com o posto de tenentes e, às vezes, de capitães. Estes oficiais milicianos, se quisessem entrar no quadro permanente, frequentavam um curso intensivo de dois anos na academia militar, após o qual eram integrados no quadro permanente como alferes graduados em capitães. Ora, os cadetes da academia militar frequentavam o curso normal de quatro anos que lhes dava o posto de alferes. Havia apesar de tudo um sistema moral de compensações justificáveis; porque o miliciano acabava o curso intensivo lá pelos 25-35 anos, enquanto que o cadete acabava o curso normal por volta dos 20 anos; o miliciano integrado no quadro permanente entrara na academia militar com uma preparação universitária parcial, ou até completa tendo obtido o respectivo diploma, enquanto que o cadete entrara apenas com uma preparação liceal; o miliciano já tinha participado na guerra do ultramar e ia participar nela pela segunda vez, enquanto que o cadete, é evidente, não tinha ainda participado na guerra. Mas o que era decisivamente importante, e de uma importância moral inegável, é que a pátria sustentava uma guerra que lhe era imposta, o que justificava medidas transitórias e de circunstância com o fim de suprir a falta de oficiais. Os militares que, após o 25 de Abril e o desastre económico que a sua incompetência provocou, fariam apelo, eles próprios aos sacrifícios da nação, não quiseram compreender as graves circunstâncias especiais relativas ao acesso do miliciano ao quadro permanente. Os militares exigiam, por exemplo, que os oficiais que foram milicianos (e que tinham frequentado a academia militar entre os 25 e os 35 anos), não fossem pro¬movidos a capitães, sem que os oficiais vindos dos cadetes (e que terminaram os cursos da academia militar aos 20 anos), não tivessem sido promovidos a capitães. E, falando do «pres¬tígio do exército», das «perspectivas finais» de uma carreira militar «atraente» (que os factos demonstraram ser a de um exército que não queria bater-se), os «capitães» punham todo o problema de um modo puramente mercenário: «Pague-se aos capitães que arriscam a vida para que sigam em frente os projectos de Cabora Bassa ou a exploração das minas da Diamang, ao menos metade, do que ganha um engenheiro dessas obras ou dessas minas, o qual apenas corre o risco de que os capitães não achem incentivos [de dinheiro, entendamos] que os levem a arriscar-se, e ver-se-á que, conquanto que a crise de quadros seja muito mais que uma questão de dinheiro [o «prestígio», sem dúvida?], utópico é querer galinha gorda com magra algibeira» [afinal de contas, trata-se sempre de dinheiro][1]. Esta passagem é tirada de um anexo à circular do movimento dos capitães, datada de 23 de Outubro de 1973, isto é, seis meses antes do putsch de 25 de Abril.

Até àquela data a indisciplina ligada às reivindicações mercenárias tinha-se limitado a ameaçar o governo com a demissão colectiva dos oficiais de todas as graduações e de todas as armas, segundo se lê nos nºs 8 e 11 da circular citada acima de 23 de Outubro de 1973. A ideia de pátria tinha sido posta de lado. Como fazer desta vergonha um caso justificável perante a nação? Só a partir de 24 de Novembro de 1973 é que o tenente-coronel Ataíde Banazol, que devia partir, dentro em pouco, em serviço militar, para a Guiné portuguesa, sugere, numa reunião de capitães, a viragem do comportamento mercenário ao comportamento político com a ideia de um golpe de estado. Ele queria que imediatamente se agisse, e apresentou mesmo o seu programa que não foi aprovado, mas a ideia da politização espalhou-se lenta e constantemente. A urgência que o bravo (?) soldado punha no assunto «explicava-se pelo facto de o seu Batalhão seguir para Africa antes do fim do ano... Mais tarde, já na Guiné, o tenente-coronel Banazol leva a sua impaciência ao ponto de contactar camaradas do Movimento, no sentido de tomar conta de Bissau e fazer negociações directas com o PAIGC»[2].

Tudo isso mostra, antes de mais, a extensão da indisciplina dos oficiais do movimento que, não contentes em se oporem à maneira pela qual os milicianos eram integrados no quadro permanente, negociavam segundo a lei da oferta e da procura, em que o comprador era o governo que representava a pátria em guerra, a nação que pagava; e em seguida, mostra o deslizar para a política, enganando os mais ingénuos, através de uma estratégia que, é necessário dizê-lo, não conquistou imediatamente a compreensão de todos os oficiais. O major Sanches Osório, que fez parte do movimento e é hoje um dissidente desiludido e um exilado político, diz no seu livro publicado em Espanha, referindo-se a um momento em que a ideia política estava já lançada, que o major Vítor Alves tinha apresentado um programa que continuava a ser «uma síntese das reivindicações... Devo dizer que este Programa foi recusado... Por várias razões, uma das quais suscitadas por mim… A meu ver não podia limitar-se a propor aumentos salariais ou melhoramentos nas condições sociais [condições sociais dos militares]»[3]. Tratava-se já de uma espécie de obsessão ao nível do homem-massa, no pior sentido desta expressão, que se não poderia fazer aceitar à nação senão através de uma politização. E esta politização não podia deixar de ser a que se opunha ao regime vigente. Se este regime fosse uma democracia pluralista ou um socialismo, tendo portanto outro contexto de acção político-social, a indisciplina militar finalizaria na institucionalização do fascismo ou de qualquer outra forma de regime autoritário.

Mas, voltando à realidade dos factos, é inegável que o pro¬cesso da traição desenvolveu-se em duas fases bem delimitadas: o da reivindicação profissional, de 9 de Setembro a 24 de Novembro de 1973, e a da politização, de 24 de Novembro de 1973 a 25 de Abril de 1974. A prova disso está no facto de os oficiais vindos dos milicianos, e nos quais predominavam as ideias esquerdistas, se oporem às reivindicações dos oficiais vindos dos cadetes da academia militar, uns e outros se insultando mutuamente. Os oficiais vindos dos milicianos alertavam a nação («este país... Não poderá permitir a estagna¬ção, a oligarquia de uma minoria de interesses ultra-direitas») e pediam para os chefes militares tomarem um atitude de firmeza «para com aqueles que leviana, injustificada, discri¬minatória e anti-regulamentarmente estão a minar o moral, a cavar fossos, a cortar amarras, a criar castas no seio de uma família que tem sido unida e que só de o ser, tem permitido que a Barca Nacional corte rectilineamente os desmistifica¬dos ventos da história»[4].

Notemos nestes textos que os seus autores, considerados como sendo os mais esquerdistas, baptizam de ultra-direitistas os oficiais vindos dos cadetes e gabam-se de serem os defensores do ultramar português! Por outro lado, os «capitães» chamam «capatazes de guerra» aos milicianos, considerando-os como oficiais de qualidade inferior[5], e reivindicam, também os títulos de principais defensores do ultramar!: «Mais do que ninguém em Portugal têm desde a primeira hora do conflito em que a Nação está empenhada, contribuído para a sua perenidade»[6].

Tudo isso pertencia, portanto, à fase da reivindicação profissional desencadeada pelos «capitães», em que a linguagem patriótica parecia ser o mínimo necessário para se manter a decência militar; no entanto, o carácter de tipo mercenário das reivindicações («querer galinha gorda com magra algibeira», «point d'argent, point de suisse») comprometia visivelmente uma linguagem de patriotismo e de «prestígio» das forças armadas, precisamente no momento em que a pátria exigia o sacrifício e a compreensão. O interesse profissional dominou sobre as ideologias políticas, frequentemente as mesmas, das duas partes em conflito.

A politização do movimento dos capitães era, apesar de tudo, a única solução. Praticamente, só foi a partir do mês de Dezembro de 1973 que se começou a orientá-lo «para qualquer coisa de mais vasto, de mais largo do que as simples reivindicações profissionais»[7]. Uma vez que este caminho foi seguido, tudo agora vai exibir um aspecto novo. A infiltração dos oficiais esquerdistas, comunistas, socialistas, vai conduzir a indisciplina mercenária do movimento (que levava já, aliás, no seu seio a traição) à mais abominável e vergonhosa traição que a História conhece - para repetir o que já escrevi no capítulo precedente; e é isso que vai conciliar ao nível político, os oficiais milicianos comunistas e esquerdistas e os oficiais do quadro permanente também comunistas e esquerdistas, enquanto que eles se opunham ao nível das reivindicações profissionais. Mas a nação, na sua enorme maioria não é comunista e apenas deseja uma democratização segundo o exemplo das nações do mundo ocidental e livre. Mantêm-se portanto certas aparências tácticas através de um plano de mentiras: falar-se-ia ao país e à opinião internacional em termos de uma democracia pluralista (para a parte europeia de Portugal), e de uma autodeterminação descolonizadora (para o ultramar português) que seria sistematicamente falseada.

Após a rejeição do programa redigido, ou praticamente redigido pelo major Vítor Alves, de que já falei, o major Melo Antunes, ligado ao «Movimento Democrático Português» (que se transformou em satélite do «Partido Comunista Português»), e que pretendia o abandono puro e simples do ultramar, sem autodeterminações e sem discussões, redigiu um novo programa - onde interveio uma comissão constituída por oficiais esquerdistas. Lá pelos começos do mês de Abril de 1974, o movimento dá conhecimento deste programa aos generais Costa Gomes e António de Spínola que sugerem certas alterações. É necessário dizer que o general Spínola publicara, em 23 de Fevereiro, o seu livro «Portugal e o Futuro», que obteve um enorme sucesso; era aí proposta uma democratização do regime dentro de uma federação ligando Portugal ao seu ultra¬mar, após uma autodeterminação que Spínola previa como nos sendo favorável, e este general declarava que a solução das guerras no ultramar era política e de maneira nenhuma militar. Os esquerdistas agarraram-se obstinadamente a esta última afirmação, separando-a do contexto.

Alguns oficiais do movimento, nos quais o sentimento da pátria não se extinguira completamente ou em que este senti¬mento pôde despertar no meio de trágicas contradições, preten¬deram ver já um programa no livro do General Spínola[8], cuja tese será estudada no capítulo seguinte; havia uma tese, sem dúvida, ou, pelo menos, o livro continha todas as linhas essenciais para uma solução digna e de uma grande importância histórica, sobretudo após a situação de facto criada pelo 25 de Abril; mas isso opunha-se aos planos de apropriação do movi¬mento dos capitães pelos esquerdistas e comunistas - o que era o essencial para estes, e que estava acima, para estes também, da ideia de pátria. Esta trama desenvolveu-se fora do conhecimento da nação até ao momento em que o movi¬mento das forças armadas tomou o poder e tirou a máscara.

Logo após o sucesso do golpe de estado, o movimento delegaria o poder - segundo a letra do programa - a uma «Junta de Salvação Nacional» «para a qual estavam já designa¬dos a priori os generais Spínola e Costa Gomes»[9]. Mas era do general Spínola que perante a nação e perante a opinião internacional era considerado como o chefe do movimento triunfante, que os esquerdistas queriam fazer o seu testa de ferro. O prestígio adquirido em África, sobretudo na Guiné portuguesa como governador desta província, durante o governo de Marcello Caetano, o grande sucesso que teve o seu livro («ao fechar o livro dirá mais tarde Marcello Caetano – tinha compreendido que o golpe de Estado militar, cuja marcha eu pressentia há meses, era agora inevitável»), e o próprio facto que até Marcello Caetano recusou transmitir o poder a um homem que não fosse Spínola, julgando que este era, pelo seu inegável patriotismo, o que melhor podia defender a pátria, em perigo, do desastre comunista, - tudo isso indicava o gene¬ral Spínola para chefe do movimento.

Mas este esboço do processo da traição não apresentaria todas as suas essenciais linhas, se não se falasse do que se sabe do comportamento destes dois generais durante os meses e os dias que imediatamente precederam o golpe de estado: o comportamento do general Costa Gomes com a ideia precon¬cebida da traição (os factos confirmaram-na) que vai até rom¬per com o seu maior amigo, o general Spínola; e o comporta¬mento deste último general que, pela sua boa fé, pelas suas lamentáveis fraquezas, pela exagerada confiança nele próprio e no seu carisma, julgando-se capaz de dominar e controlar finalmente os acontecimentos, deixou-se apanhar nas armadilhas que outros lhe armaram.

Dois meses antes do golpe de estado de 25 de Abril, o general Spínola reafirmou a Marcello Caetano que era «um militar disciplinado que não participava em conspirações nem dava golpes de Estado»; e o general costa Gomes dizia pessoal¬mente a Marcello Caetano que este devia «continuar a fazer o sacrifício de estar no governo». No dia 14 de Março (mês e meio antes do 25 de Abril), o general Costa Gomes aderia, como praticamente todos os oficiais generais que foram pessoalmente prestar fidelidade ao governo, ao princípio que as forças armadas deviam subordinar-se à realização dos objectivos nacionais fixados pelos órgãos que a constituição reconhecia; simplesmente «tinha relutância em vir publica¬mente tomar um compromisso em nome das Forças Armadas sem as consultar, muito embora concordando em que o prin¬cípio fazia parte da ética militar (mas, argumentava, por isso mesmo não era preciso reafirmá-lo)»; e o general Spínola explicava a sua ausência pela «fidelidade que julgava dever ao seu chefe imediato» que era o general Costa Gomes, chefe do estado-maior general, Spínola sendo o vice-chefe[10].

Ora, desde o dia 5 de Março de 1974, para não citar senão datas incontestáveis ou incontestadas até hoje, Costa Gomes e Spínola estavam já ao corrente do programa do movimento («a partir desta data iniciava-se um vaivém de cópias do pro¬grama para os generais Costa Gomes e Spínola, os quais iam propondo alterações, depois discutidas pela Comissão Coorde¬nadora do Movimento»)[11]; já no mês de Agosto de 1973 ou nos primeiros dias do mês seguinte (oito meses, mais ou menos, antes do golpe de estado militar), o general Costa Gomes informou Marcello Caetano que ele tomara contacto directo com o movimento dos capitães (nessa altura tratava-se ainda de um movimento de indisciplina mercenária e de reivin¬dicações profissionais) e que ele lhes assegurara que «tomaria daí por diante a defesa da causa deles»[12]. Estava-se, ainda longe da politização. E, desde os seus começos, o movimento (tratava-se ainda, repito-o, de uma indisciplina de tipo mercenário de reivindicações profissionais) tinha certamente uma ligação indirecta com Spínola, através de alguns dos seus adeptos que faziam parte do movimento[13].

Todas estas maquinações são repugnantes, ainda que se saiba que o general Spínola, ao contrário do general Costa Gomes, tinha os seus escrúpulos: emitindo a sua opinião sobre as reivindicações profissionais dos capitães, o general Spínola não deixou de lhes dizer «que, embora tivessem razão, eles estavam a ultrapassar os limites da disciplina militar, na medida em que se tinham agrupado como força de pressão da base e até pretendiam formar uma «Ordem de Oficiais» e fomentar uma «Associação de Sargentos». Errado - pensava ele - porque, em vez de se acreditar na capacidade de recuperação da estrutura militar, pretendia-se introduzir um processo de «reivindicação sindical» que desarticularia a instituição»[14]. Era o bom senso.

Chegados à fase final da politização do seu movimento de massa - no sentido mais pejorativo do termo -, politização da qual se pôs em evidência a trama, os capitães teriam hesitado entre o general Costa Gomes, que eles achavam, não sem razão, mais sensível aos seus fins e que era já o seu conselheiro[15], e o general Spínola[16], para escolherem aquele que seria o chefe do movimento; mas, graças ao seu incontes¬tável prestígio e finalmente graças ao sucesso que obteve o seu livro «Portugal e o Futuro», a escolha caiu no general Spínola.

Logo que venceu o golpe de estado militar de 25 de Abril, o general Spínola tornou-se presidente da junta de «Salvação Nacional», e também presidente da república.

Proclamou-se aos quatro ventos que as forças armadas tinham deposto, sem um só tiro, o «fascismo» em Portugal. Discutir-se-á, mais adiante, o conceito de fascismo; por agora bastará reter a ideia de que o fascismo é um regime totalitário, portanto um regime ditatorial, que, entre outras características fundamentais, tem a seguinte: o regime fascista é sustentado pela força das armas que adquirem a preponderância política. Pôr-se-á portanto o problema de saber qual era a espécie de fascismo que as forças armadas depuseram em Portugal, que já não dispunha do seguro aparelho militar de que dispõem todos os fascismos, e que começara já há muito tempo a esforçar-se por pôr o exército à margem da política e do governo da nação.

Está fora de dúvida que o totalitarismo fascista, que se definiu em Itália com Mussolini, exerceu uma grande influência, determinando «uma série de movimentos e de regimes que, como precisamente os movimentos e regimes democráticos e comunistas, tiveram um tão grande papel na vida moral, social e política da Europa na primeira metade deste século»[17]. Portugal, onde a revolução de 28 de Maio de 1926 instaurou uma ditadura militar, sofreu esta influência durante a administração de Salazar (a criação das forças paramilitares tais como a «Legião» e a «Mocidade Portuguesa» testemunha-a), que se substituiu à «coligação heterogénea, sem programa político preciso» dos vencedores de 1926, cujo «único acordo era o estabelecimento de um poder forte, garante da ordem, apoiando-se no exército»[18]. Mas, por um caso psicológico e paradoxal para um «fascista», Salazar, animado de espírito legalista e cioso do seu poder autoritário pessoal, ainda que tendo apoiado a ditadura nos militares, parecia, ao mesmo tempo, pô-los em segundo plano, pois ele chamava cada vez mais a si a força política pela qual ele se tornava o árbitro de um regime paternalista. Com efeito «a partir da promulgação da Constituição Política de 1933 o Dr. Salazar procurou sempre afastar as Forças Armadas da acção política, embora mantendo um militar na Presidência da República como elemento de contacto e como fiador da observância da doutrina do regime»[19]. Esta estratégia era absolutamente oposta aos métodos fascistas (e comunistas) em que a carreira militar, pelo papel que tem na própria defesa dos regimes fascistas (e comunis¬tas), não pode deixar de ser materialmente atraente, bem paga. Havia, certamente, uma polícia política, a «Polícia Internacional e de Defesa do Estado», e mais tarde a «D.G.S.», mas em caso de oposição entre a polícia política e o exército, não se pode de maneira nenhuma dizer que este predominava sobre pri¬meira. É que Salazar contava com o seu prestígio pessoal. O seu sucessor, o prof. Marcello Caetano, levou ainda mais longe a ideia de se não apoiar o regime paternalista nas forças armadas. «Fora dolorosa - diz no seu livro - a experiência dos dezasseis primeiros anos do regime republicano com constantes intervenções militares na vida pública sob a forma de golpes de Estado e de revoluções, e os tempos do início da Ditadura não tinham deixado melhores recordações da ingerência dos quartéis na política. Normalizar a vida cívica do País implicava, pois, necessariamente, a redução das Forças Armadas ao seu papel de instrumento ou meio de realização dos objectivos nacionais fixados pelos órgãos a que a Constituição desse competência para o fazer»[20].

Assim, contrariamente ao que se passa nos regimes comunistas e nos regimes verdadeiramente fascistas, que não podem subsistir sem a força brutal de um exército ao seu serviço e, por conseguinte, bem paga, em Portugal a carreira militar tinha deixado de ser atraente; pediam-se aos militares sacrifícios pela pátria, mas não se comprava o seu apoio político: «os jovens oficiais (…) vinham começando a não entender muito bem por que lhes eram impostos tantos sacrifícios, por que razão eram obrigados a combater sem discutir, por que eram mal pagos...»[21]. - «O exército já não constituía uma carreira de promoção social». - «Os seus vencimentos pode¬riam acaso comparar-se com os ganhos dos fazendeiros, não falando já das grandes companhias (…)?»[22]. - É preciso que o oficial do quadro permanente deixe «de ser abrangido pela denominação de «funcionário público», o que é só para efeitos de vencimento-base, que não para outro tipo de subsídios (vidé ajudas de custo, previdência, horas extraordinárias, etc.)… Há que acarinhar» aqueles a quem «se deve a manutenção do Ultramar»[23]. - «Eis que aparece também agora (felizmente) a classe de sargentos a lutar pela melhoria da sua situação… Há também que resolver urgentemente o grave problema da situação das praças, nomeadamente no que respeita ao seu vencimento (pré) (…) à assistência e previdência social para as mesmas e respectivas famílias»[24], etc.

Todos estes insuspeitáveis textos mostram que a condição de vida ou de morte de um regime fascista (ou comunista), isto é, a existência de um exército bem pago, não existia já em Portugal, e o governo português tinha-a descurado ao ponto de provocar as reivindicações profissionais donde saiu o golpe de estado. O próprio carácter militar deste golpe de estado confirma-o. Em 25 de Abril de 1974 não havia portanto fascismo em Portugal; o que havia, era um regime que continuava a ser paternalista e não se liberalizava, não se democratizava até ao pluralismo dos partidos por medo ao partido comunista que, por ideologia, é anti-democrático e anti-liberal: «Liberalização? -sempre expliquei - diz o jurista Marcello Caetano no seu livro - que a um professor de Direito Público não podia deixar de se impor a ideia de governar com respeito das justas liberda¬des dos indivíduos e dos grupos» mas «entre quantos reclamam liberdades figuram muitos que as não querem senão para terem aberto o caminho do poder totalitário que logo as suprimirá»[25]. Os factos confirmaram-no. Pode-se admitir a abertura das insti¬tuições democráticas aos partidos comunistas (e, pelas mes¬mas razões, aos partidos fascistas) nos países em que os princípios democráticos e de liberdade estão de tal maneira enraizados na consciência da maioria, que os comunistas (e os fascistas) apenas podem ter um papel de crítica, provavel¬mente útil e fecundo se se tratar de uma critica no bom sentido da palavra. Quando esta condição não se verifica, a primeira condição para instaurar uma democracia é a de afastar da jovem democracia as forças políticas que apenas se servi¬riam dela para a destruir. Claro que ao dizer tudo isto, serei apelidado de fascista pelos comunistas (talvez, também, de comunista, pelos fascistas), mas são slogans que pertencem a um certo nível de embrutecimento que caracteriza a crise actual do pensamento ocidental[26].

Se o governo do professor Salazar se mantinha graças ao seu extraordinário prestígio pessoal, apesar de todas as críticas de que foi alvo, se ele estava politicamente acima de um exército cada vez mais afastado do poder político, mas que, no entanto, defendia o regime em razão do grande prestígio do professor de Coimbra, - o governo de Marcello Caetano manteve-se pelo medo que a maioria da nação tinha do futuro, em face de uma oposição muito dominada, ou que parecia muito dominada, pelo esquerdismo. Mas não deixemos de acentuar que a maioria acreditava na probidade governativa de Marcello Caetano, mesmo quando não se estava de acordo com a sua política. Assim, nas eleições de 1968 (deputados), o governo de Marcello Caetano obteve uma inegável vitória, reconhecida mesmo por pessoas responsáveis da oposição que fizera uma campanha eleitoral abertamente esquerdista e contra a guerra do ultramar[27].

Não quero, de maneira nenhuma, dizer que certas perspectivas de mudança política não galvanizaram a nação, quando essas perspectivas lhe pareciam uma democratização e não um deslize para o comunismo e o abandono sem dignidade do ultramar; os dois casos mais característicos foram a campanha eleitoral em favor da candidatura do general Humberto Delgado à presidência da república (1958) e o entusiasmo dos primeiros dias que se seguiram ao golpe de estado de 25 de Abril, quando a nação acreditava ainda na honestidade democrática do movimento, o que quero dizer e pôr em evidência, é que o «fascismo» português dos primeiros anos atenuara-se, moderara-se progressivamente (sob as influências do pensamento democrá¬tico revivificado após a segunda grande guerra), solidificando-se num paternalismo autoritário que, ao mesmo tempo, se esforçava por não precisar do apoio comprado das forças armadas habituadas, em Portugal, aos golpes de estado.

Esta política seria um beco sem saída se não se fizesse apelo ao sufrágio democrático, substituindo e afastando o flagelo dos governos e dos regimes militares. Marcello Caetano fez apelo ao sufrágio; mas havia ainda uma contradição entre este apelo ao sufrágio (o de 1968 deu-lhe uma extraordinária vitória, já se disse) e o não reconhecimento do pluralismo de partidos. De qualquer maneira, a administração de Marcello Caetano levava já nela uma democratização potencial, ou, mais exactamente, o sentido de uma solução democrática, e anti-militarista, - portanto, de maneira nenhuma fascista, se não se quiser deformar os conceitos[28]. Os espíritos superficiais e facciosos falam, para explicar a facilidade do golpe de estado de 25 de Abril, de um estado fascista «apodrecido»[29], em vez de falarem de um processo evolutivo que afastara esse estado, cada vez mais, do fascismo. O que estava podre, e tragica¬mente podre, era o exército; foi por isso que ele não soube nem quis apoiar a solução democrática de que Marcello Cae¬tano teve medo. É por isso, ainda, que, tendo transformado um movimento de tipo mercenário num golpe de estado político, as forças armadas enganaram a nação; porque, apresentando-lhe um programa democrático aberto a todos os partidos e a toda a discussão de ideias, ainda que tendo suas lacunas e seus subterfúgios, as forças armadas nada fizeram democraticamente; tudo foi feito demagogicamente, como em todos os fascismos ou em todos os comunismos. Aliás o programa «pres¬tava-se a ser interpretado de diferentes maneiras»; e quando o professor Palma Carlos (chefe do primeiro governo provisório) pediu que se lhe explicasse o sentido da «estratégia antimono¬polista» inscrita no programa (uns entendiam-na no sentido neocapitalista, e os outros prestavam-lhe um matiz comunista), ninguém lho soube explicar claramente[30]. Tratava-se de uma ambiguidade intencional ou de ausência de ideias precisas? Um ponto que os militares golpistas desejavam era o de não se permitir partidos políticos, mas somente associações ou movimentos políticos que, mais tarde, poderiam dar origem a partidos. «Este ponto, aliás, é muito claro no Programa»[31]; adivinha-se, aí, a ideia de manter as forças armadas como árbitro permanente da situação política militarista. No que diz respeito à imprensa, à rádio, à televisão, ao teatro e ao cinema, o programa põe-nos sob controle das forças armadas, criando uma comissão ad hoc para impedir e punir (o que se fez, indo até à suspensão ou supressão de jornais) a «agressão ideológica», isto é, toda a crítica perturbando a opinião pública, isto é, oposta aos militares e, por conseguinte proveniente (assim se decretava) «dos meios mais reaccionários». O programa, querendo parecer democrático, está, no seu conjunto, mal elabo¬rado, cheio de lugares comuns, de enunciados intencionalmente vagos ou incompletos, e demagógicos, de uma esperteza saloia que denuncia bem o fim de fazer dos militares-parasitas os únicos amos e os principais exploradores da nação e dos trabalhadores explorados num regime totalitário. Mas, sem expe¬riência política e sem cultura política, não puderam libertar-se dos partidos (naturalmente dos partidos de esquerda que visavam o totalitarismo) e, então, por sua vez, os militares foram os joguetes destes partidos e das suas rivalidades.

Tudo foi traído: o programa e a nação, a democracia (onde o programa a afirmava), e a pátria (onde a letra parecia patriótica). Durante alguns meses, o general Spínola foi a esperança dos portugueses e dos democratas mais sinceros; mas, colocado neste pandemónio ao mesmo tempo trágico, grotesco e carnavalesco, o general chegou ao ponto de sancionar o que ele próprio não queria, contra todas as teses do seu livro «Portugal e o Futuro», até ao momento extremo em que teve que se demitir de presidente da república.

O general Spínola perdeu, assim, o carisma no qual ele próprio demasiadamente confiara; mas teve no meio de toda esta tragédia, o seu momento mais alto, que fez estremecer de emoção ai maioria da nação, quando pronunciou o discurso da sua demissão, referindo-se à «maioria silenciosa» que o apoiava. Será que ele é capaz de recuperar o prestígio perdido e colaborar com os melhores portugueses capazes de salvar o que se possa ainda salvar?

Em todo este processo de traição conduzindo ao 25 de Abril e às suas consequências, é necessário distinguir os militares que bem tiveram consciência da traição cometida; os que se deixaram enganar pelas palavras; e os que, sem qualquer convicção política, teriam continuado a olhar sobretudo os seus interesses ligados a um regime militar graças ao qual teriam acesso aos postos principais. A ingenuidade, a fraqueza de carácter e a estupidez de uns, fizeram com que eles fossem pastoreados pela ambição e a astúcia dos outros. Mas a História inexorável julgará a todos segundo as suas responsabilidades e dirá quem, entre eles, valerá mais.

Acabo de esboçar a trama complexa de uma traição, sem apresentar todos os detalhes de uma minuciosa investigação de historiador, mas coloquei em evidência os aspectos morais essenciais que se quer esconder em Portugal e que a opinião pública internacional ignora.

Os factos, propriamente políticos, que dizem respeito à mudança do regime em Portugal, e ao abandono (e sem dignidade) do ultramar português com as populações brancas que o fizeram, interpenetram-se; mas foi este último que deu o golpe decisivo na existência histórica de Portugal. Entendo por existência histórica de um país a sua realidade efectiva na História, com a contribuição que este país deu ou dá à cultura e à civilização. Considerando a dialéctica massa-elite (cap. I) no plano das nações, direi que uma nação de existência histórica é uma nação-elite, contrariamente às nações-massas às quais falta relevo suficiente e significação especial na História. Não quero dizer que uma nação-massa não possui necessariamente homens-elite capazes de contribuir para o progresso da cultura e da civilização do mundo; mas sem homens-elites que façam valer certas circunstâncias favoráveis, nenhuma atingirá, jamais, o nível de uma existência histórica de nação-elite. A minha pátria, que tinha uma existência histórica, feita e man¬tida pela vontade, apenas, dos seus heróis e dos seus grandes homens, foi destruída, ao fim de quase mil anos, pela vontade dos seus pequenos homens, um bando de traidores - os militares de um exército podre, que se recusaram a defendê-la e fizeram o jogo dos seus inimigos.

A História mostra-nos que há factos que são verdadeiras catástrofes nacionais pela sua repercussão psicológica e inte¬lectual nas populações dos países atingidos. Trata-se de um traumatismo colectivo resultando de um desnivelamento abrupto, absurdo, irracional (ou tido como tal) entre o que era e o que é, qualquer coisa como uma demissão histórica. A queda da Grécia e a queda de Roma, estas duas admiráveis nações-elites, são os dois mais notáveis e irreparáveis casos da história antiga; a dupla queda da Alemanha, após as duas grandes guerras, é um dos exemplos da história contemporânea; a Alema¬nha, aliás, dolorosamente e relativamente recuperada, perma¬nece dividida em dois estados. Devo também citar um exemplo muito particular: o de Israel, que sofreu duas catástrofes nacionais, as duas diásporas: a do cativeiro em Babilónia (597-538 a. C.) e a da queda de Jerusalém (70 d. C.)[32]. O caso particular destas duas perdas de existência histórica como estado, é que Israel subsistiu (como povo judeu - ainda que disperso, fragmentado - por causa da força religiosa que, desde as suas origens, cimentara o estado) e sobreviveu a estas duas catástrofes. Daí surgiu o sionismo, movimento para a restauração de um estado judaico, que foi finalmente criado em 1947 (estado de Israel)[33].

As causas destas catástrofes nacionais podem portanto ser de diferentes naturezas, de diferentes extensões e profundidades, as consequências variando, umas reversíveis e outras irreversíveis; cada nação terá a sua catástrofe, que é a perda da sua existência histórica, no quadro de um conjunto de elementos étnicos, históricos, geográficos, etc., que explicavam a sua existência como nação e estado político.

A existência histórica de Portugal começou com os des¬cobrimentos e manteve-se pela colonização, bem caracteristicamente portuguesa, do ultramar (cap. III). Não se quer dizer que esta existência histórica terminaria, mais ou menos, tarde, com a independência das províncias portuguesas, no fim do processo normal da colonização. Já falei de uma autodescolonização no próprio seio da colonização portuguesa, da qual tornarei a falar no capítulo seguinte. A independência do Brasil, antiga colónia portuguesa, não foi, de maneira nenhuma, para Portugal, uma catástrofe. Foi uma autodescolonização. Com suas incontestáveis repercussões económicas, criando problemas, ela tinha toda a lógica, toda a racionalidade do que, nos começos do capítulo III, falando do conceito de pátria, considerei como a transferência do conceito-sentimento de pátria, pelo qual os portugueses criavam um novo Portugal, um segundo Portugal, e pelo qual Portugal, do ponto de vista ampliado da sua cul¬tura, da sua civilização e da sua missão cultural e civilizadora, se prolongava e se revia na própria independência do Brasil. O recente estabelecimento de uma cidadania luso-brasileira reconhecida pelas duas constituições do Brasil e de Portugal (antes, claro, do golpe de 25 de Abril), prova-o de maneira notável: os portugueses no Brasil tendo os mesmos direitos e deveres que os cidadãos brasileiros, reciprocamente, os brasileiros em Portugal têm os mesmos direitos e deveres que os cidadãos portugueses. Não sei se haverá caso idêntico na história das outras nações. Pode-se verdadeiramente falar de uma comunidade da língua e da cultura portuguesa, transatlântica.

A traição do movimento das forças armadas, que fez o 25 de Abril, impediu, para as províncias portuguesas de África, a continuação deste espírito especificamente português bem marcado pela sua colonização autodescolonizadora.

Os militares do golpe de estado, e os seus cúmplices ou comparsas comunistas e socialistas, divulgaram, em Portugal e no estrangeiro, que a guerra no Ultramar estava perdida, e para sustentarem essa horrível mentira, invocaram até o general António de Spínola. É falso: o general Spínola nunca escreveu tal coisa. Num dos seus livros publicado em 1972, escreveu: «Numa guerra deste tipo de guerrilha, as forças da ordem ganham-na se a não perderem, assim como a subversão a perde se a não ganhar», e alguns meses antes do golpe de estado, no seu livro «Portugal e o Futuro», escreveu: «Às Forças Armadas apenas compete, pois, criar e conservar pelo período necessário - naturalmente não muito longo - as con¬dições de segurança que permitirão soluções político-sociais, únicas susceptíveis de pôr termo ao conflito». A verdade é que nas vésperas do golpe de 25 de Abril de 1974, isto é, «no dia 24 de Abril de 1974, o terrorismo em Angola parecia definitivamente esmagado. A F.N.L.A. - que sucedeu à U.P.A. de sinistra memória - agonizava em pequenos redutos montanhosos do Congo, abandonada pela população, vivendo de abastecimentos e municiamentos que à custa de dificuldades sem conta o Zaire lhe fazia chegar às mãos. No Leste, pouco povoado, fugindo à animosidade da população local e às forças do exército, a U.N.I.T.A. [outro movimento terrorista] arrastava-se de floresta para floresta mercê do auxílio que recebia da Zâmbia. O M.P.L.A. [um terceiro movimento terrorista, comunista] tinha umas centenas - a custo uns escassos milhares - de simpatizantes na cintura industrial de Luanda.

Angola era, então, um grande país, pacífico, próspero e muito rico, em que as populações de todas as cores e etnias confiavam firmemente nas forças armadas a que tinha sido entregue a sua defesa.

Logo após o 25 de Abril, porém, as fronteiras foram franqueadas ao inimigo, os europeus e movimentos que lhes eram afectos foram desarmados, e permitida a livre entrada de tropas e armas para os movimentos terroristas ao mesmo tempo que se determinava, unilateralmente, um cessar fogo que, no dizer de um dos mais proeminentes vultos do movimento, correspondia a renunciar a ganhar a paz aceitando perder a guerra.

Nessa altura a F.N.L.A. passou a ser abertamente abaste¬cida e municiada pelo Zaire, pelos Estados Unidos e pela China, a U.N.I.T.A. pela Zâmbia e pela China. O M.P.L.A. - comunista - passou a ser abastecido pelas forças armadas portu¬guesas e pelos países comunistas»[34].

Tudo se passou ao mesmo nível de traição na Guiné portuguesa e em Moçambique, e, de uma maneira mais discreta, ainda que com a mesma significação no plano moral, em Cabo Verde e em Timor[35], como em S. Tomé e Príncipe (territórios onde nem sequer havia guerra).

Reduzindo abruptamente Portugal a um pequeno território da Península Ibérica, arrancando-lhe o mundo geográfico da sua missão cultural e civilizadora, os militares traidores provoca¬ram o traumatismo nacional da sua demissão histórica, o fim da sua existência histórica, em duas palavras; o fim histórico de Portugal.

Vários partidos políticos portugueses associaram-se plenamente a esta traição: os partidos comunistas e o partido socialista. Eles devem ser devidamente estigmatizados. Outros partidos, praticamente calaram-se perante esta traição: devem ser também devidamente chamados ao julgamento da História.

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Notas:

[1] No original francês: «Traduz-se livremente o provérbio português: «querer galinha gorda com magra algibeira», que corresponde à locução: «point d’argente, point de suisse», – locução que vem das tropas mercenárias suíças, no tempo em que os governos estrangeiros as obtinham pagando-as com dinheiro».

[2] Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril (Lisboa, Moraes, 1975), p.332-n.

[3] Sanches Osório, El engaño del 25 de Abril en Portugal (Madrid, Sedmay Ediciones, 1975), p. 23.

[4] Documentos difundidos no mês de Julho de 1973

[5] Anexo à circular de 23 de Outubro de 1973

[6] Exposição dos capitães da Guiné portuguesa, datada de 28 de Agosto de 1973 e dirigida ao presidente da república (Américo Tomás), ao presidente do conselho (Marcello Caetano) e a outros membros do governo. A palavra «perenidade», no texto, refere-se, para ter um sentido, à palavra «Nação» e não a «conflito». Os actuais militares portugueses vindos dos cadetes da academia militar, não sabem, em geral, escrever.

[7] Vid. entrevista de Otelo Saraiva de Carvalho in «Expresso» (Lisboa, 27 de Julho de 1974).

[8] Sanches Osório, ibid., pág. 25.

[9] Id., ibid., pág. 50.

[10] Marcello Caetano, Depoimento (Rio de Janeiro - São Paulo, Record, 1974), pág. 202.

[11] A. Rodrigues, C. Borga, M. Cardoso, O Movimento dos Capitães e o 25 de Abril (Lisboa, Moraes, 1975), pág. 19.

[12] Marcello Caetano, Depoimento (Rio de Janeiro - São Paulo, Record, 1974), p. 187. - O livro do prof. Marcello Caetano, do qual eu tiro estas notas, respira a verdade dos factos e a honestidade. Raramente um vencido escreveu um depoimento tão sereno como o do prof. Marcello Caetano; não contém uma única palavra onde transpareça ódio contra os seus adversários; a palavra mais dura que aí se pode encontrar é a que se refere ao secretário-geral do partido socialista português: era «um apagado advogado… Mário Soares, de seu nome, não representava grande coisa no País - salvo a influência das forças estrangeiras que o manobravam». Depoimento é um livro cheio de interesse histórico escrito por um verdadeiro português e patriota: não se o pode negar, se se quiser ser honesto, mesmo que não se esteja de acordo com as ideias políticas do seu autor.

[13] A. Rodrigues e outros, ibid., p. 269. - Este livro é perfeitamente favorável ao movimento reivindicativo dos capitães, mas o que importa são a exactidão das datas e a objectividade dos factos para uma interpretação objectiva.

[14] A. Rodrigues e outros, ibid., pág. 273.

[15] Id., ibid., pág. 274.

[16] Id., ibid., pp. 333-4.

[17] Renzo De Felice, Comprendre le Fascisme, trad. do italiano por Marc Baudouy (Paris, Seghers, 1975), pág. 25.

[18] Albert-Alain Bourdon, Histoire du Portugal (Paris, P.U.F., 1970), pág. 116.

[19] Marcello Caetano, ibid., p. 202.

[20] Marcello Caetano, ibid., p. 202.

[21] A. Rodriguese outros, ibid., pp. 306-7.

[22] Id., ibid., p. 349.,

[23] Exposição-tipo elaborada, em 1973, por vários oficiais e que foi assinada e apresentada por centenas de oficiais.

[24] Circular do movimento (Outubro de 1973) não difundida por razões estratégicas (A. Rodrigues e outros, ibid., pp. 325-6).

[25] Marcello Caetano, ibid., p. 69.

[26] «…O termo fascista foi utilizado duma maneira cada vez mais geral e sem discriminação. Foi utilizado para descrever o único regime de tipo fascista saído indemne da guerra, o regime franquista em Espanha… Mas também foi utilizado para definir o regime de Salazar em Portugal e o de Peron na Argentina… Começou-se a falar de um renascer do fascismo após 1958 e a vinda, de novo, ao poder de De Gaulle em França… Durante a guerra fria, mas mais recentemente ainda, o movimento comunista, os Soviéticos e os Chineses qualificaram como fascista mais do que um aspecto da polí¬tica dos Estados Unidos e dos seus aliados. Numerosos são os que também apelidaram de fascistas certos governos, especialmente da América latina, que, no entanto, seguiam mais o exemplo do conservantismo tradicional e que, além disso, participavam da experiência histórica particular destas regiões. O mesmo se dirá do regime dos coronéis e dos generais na Grécia. Os Chineses, por sua vez, falaram recentemente da União Soviética como de um Estado «social-fascista»… Neste clima, nasceu a exigência - científica e prática -, proveniente de vários lados, desde há alguns anos, não apenas de pôr fim a este uso indiscri¬minado e deformante do adjectivo fascista (houve mesmo quem propusesse, paradoxalmente que se o banisse pelo menos temporariamente do nosso vocabulário), mas também de procurar estabelecer definitiva¬mente o que se deve entender por fascismo…». - Renzo De Felice, Comprendre le Fascisme, trad. do italiano por Marc Baudouy,Paris, Seghers, 1975), pp. 16-8.

[27] «Nos meus papéis havia fotocópias de declarações espontaneamente redigidas e assinadas pelos representantes das listas de oposição em certas assembleias a congratular-se com a forma correcta como tudo tinha decorrido. Lembro-me de que uma dessas declarações tem a assinatura do Prof. Lindley Sintra... Conversei nos dias que se seguiram à eleição com vários elementos da oposição: todos reconhe¬ceram a vitória do governo e que o acto eleitoral havia sido o mais correcto de quantos, até aí, haviam visto em Portugal sob qualquer regime» (Marcello Caetano, ibid., pp. 60-1). Das eleições de 1973, as últimas que se realizaram sob a administração de Marcello Caetano, é inútil falar, porque a oposição desistiu, no último momento, de ir às urnas.

[28] O regime deposto não deixou nunca de fazer a corte aos intelectuais da oposição que, sem abdicarem das suas ideias, não se mostraram insensíveis. Os escritores José Régio, Miguel Torga, Domingos Monteiro, Armindo Rodrigues, Tomás de Figueiredo e Fidelino de Figueiredo não recusaram os prémios literários que o jornal considerado «fascista» «Diário de Notícias», abertamente salazarista e, depois, marcellista, lhes atribuiu. Fidelino de Figueiredo foi mesmo condecorado pelo governo. Os escritores Domingos Monteiro, Sofia de Melo Breyner e David Mourão-Ferreira (este teve mesmo uma situação de relevo na rádio nacional) receberam prémios literários do secretariado nacional de informação («S.N.I.») que dependia directamente da presidência do conselho do Regime deposto. Creio que nunca se viram tais casos num regime fascista.

[29] A. Rodrigues e outros, ibid., p. 15.

[30] Sanches Osório, El Engano del 25 de Abril en Portugal (Madrid, Sedmay Ediciones, 1975), p. 53.

[31] Id., ibid., p. 53.

[32] A nação judaica teve uma existência histórica incontestável no seu mundo semítico, levando-lhe a elaboração monoteísta perfeita de um Deus pessoal e criador, com enormes consequências morais, sociais e políticas. O cristianismo introduziu e manteve este mono¬teísmo semítico no mundo ocidental, o que, de uma certa maneira, actualiza e confirma a importância da existência histórica que teve a nação judaica.

[33] A ignorância deste facto psico-histórico pode fazer valer, no seio da «O.N.U.» (organização em que as palavras dominam os con¬ceitos), a tese de que o sionismo é um racismo e que, por conseguinte, Israel deve ser expulso da «O.N.U.» (onde o racismo não seria admi¬tido). Ora, o sionismo não põe nenhuma relação de discriminação racial agressiva, nem mesmo desdenhosa, entre o povo judeu e os outros; ele apenas põe uma relação interna entre a sua etnia e a sua religião, e que foi, precisamente, uma resposta defensiva aos racismos de que o povo judeu foi vítima através dos tempos. A campanha anti¬-sionista, levantada na «O.N.U.», ignorando a especificidade histórica do facto judaico, e pretendendo isolar Israel, é um novo aspecto do racismo anti-semita. - Estará o sionismo fora de toda a crítica? De maneira nenhuma.

[34] A longa transcrição que fiz, é um texto tirado do «Jornal Português de Economia & Finanças» (Lisboa, 1-15 de Outubro de 1975). Esta notável publicação, muito bem informada, dirigida por A. Valdez dos Santos, é uma leitura obrigatória para todos os que se interessam pela história do desmoronamento de Portugal, e que procuram um juízo corajoso e sério dos factos; isto já levou esta revista a ter sido suspensa e condenada a uma pesada multa por «agressão ideológica» contra as forças armadas.

[35] No momento em que estou a escrever estas linhas, tudo se precipita na província de Timor. - O governo português apoiara decididamente o movimento comunista minoritário formado em Timor, opondo-se à «U.D.T.» (que defendia uma ligação com a mãe-pátria). O governo provincial acabou por abandonar um território que estava ainda debaixo da soberania portuguesa, deixando atrás de si a guerra civil. Os traidores e os covardes que fizeram o 25 de Abril já conse¬guiram ver a Indonésia ocupar o Timor português.
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Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

A Ponte de Canaveses - Marco de Canaveses.

Infelizmente até a data de colocação deste "post" (13/10/2009) é impossível obter qualquer imagem da Ponte de Canaveses visto a própria C.M. do Marco de Canaveses nunca ter tido a preocupação de incluir no seu site qualquer tipo de alusão a esta importantissima via de ligação entre margens, uma artéria principal de acesso a cidade do Marco, que serviu a população durante gerações e foi extinta pela construção de uma barragem já na década de 80.
"Esta aguarela datada de 1966 foi a única imagem encontrada após intensa procura."

Em 1935, ainda a velhinha ponte românica se erguia, orgulhosa, depois de ter vencido as duras refregas da Segunda Invasão Francesa. Soult bem tentou atravessar o rio, mas encontrou a oposição de António da Serpa Pinto, capitão-mor do Concelho de Canaveses, Soalhães e Tuías.

Durante longos dias, a ponte foi defendida, tão bem que os franceses não passaram, mesmo que à custa de muitos mortos e feridos. Grandemente danificada, seria reparada mais tarde, com os seus sete arcos e guardas ameadas. Estava em ruínas nos inícios do nosso século, tendo sido demolida e substituída por outra semelhante, em 1944.

Atitude incompreensível do poder de então, "impensável hoje em dia" disseram alguns, mas curiosamente a ponte edificada em 1944 e representada na aguarela acima TAMBÉM FOI COMPLETAMENTE DESPREZADA não sabendo (por incrivel que pareça) a própria população da cidade do Marco de Canaveses se a ponte está submersa, se foi desmontada ou destruida!!!
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Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

O Navio Fantasma - Factos Reais.


O Holandês Voador surge repentinamente nos mares: navio-fantasma, veleiro diabólico, barco maldito, condenado a vagar eternamente entre dois dos três cabos. Do cabo das Tormentas ao cabo Horne, com seu satânico capitão Bernard Fokke ao leme, no meio da tempestade, envolto em relampagos, o veleiro fantástico aparece entre duas enormes vagas, prestes a desaparecer entre duas outras. Lenda? Certamente! Mas mesmo assim os guarda-costas norte-americanos destru¡ram 267 navios-fantasma em 1930 e outros apareeem sempre. Trata-se dos destroços de navios naufragados? Sim, mas também de barcos inteiros.



Isso aconteceu especialmente no tempo da navegação a vela e não tem nada de fantasmagórico! Talvez, mas falamos de alguns barcos que navegam autenticamente --- e toda lenda tem seu fundo de verdade. Em abril de 1890, o Marlborough, com seus três mastros, sob as ordens do capitão Hid, foi visto nas imediações da costa sinistra que separa o estreito de Magalhães das ilhas do cabo Horne. Depois não se teve mais not¡cia dele. O Marlborough foi considerado desaparecido. Exactamente em outubro de 1913, 23 anos mais tarde, o Marlborough reapareceu na mesma região, com as velas levantadas. As grandes vagas , que provocam tremores de terras submarinos , atingem até 150 km de comprimento e se deslocam a uma velocidade de quase 800 km/h.



Nessas regiões, o mar pode invadir a costa até dez metros por ano, provocando tempestades violentas. Pois bem, durante 23 anos o Marlborough não foi destru¡do e suas velas continuaram intactas. Não se teria abrigado em uma ba¡a e voltado ao mar mais tarde impelido por um vento da terra? Imposs¡vel. Se tivesse encalhado, as autoridades chilenas ou argentinas teriam sido notificadas, pois os habitantes da Terra do Fogo eram saqueadores tem¡veis, que precisavam de madeira, víveres e roupas. Ora, a carga do navio estava igualmente intacta.



Algumas pessoas subiram a bordo. As enxarcias estavam verdes, a ponte inteiramente podre, o diário de bordo todo mofado. Um esqueleto foi encontrado segurando o leme, três outros em cima da coberta perto do quartel das escotilhas, dez nos seus postos e seis no refeitório. Todos estavam vestidos normalmente; todos pareciam ter morrido em suas funções e ao mesmo tempo. Uma epidemia teria provocado um reagrupamento. Um envenenamento é inadmiss¡vel, porque a tripulação não come às mesmas horas e também porque as reacções dos organismos são diferentes de indiv¡duo para indiv¡duo. Hoje talvez pensassemos em algum fenómeno de radioactividade, mas quem pode saber? 0 veleiro que descobriu o Marlborough afastou-se do navio-fantasma e esse nunca mais foi visto.



Em 1873, alguns navegadores encontraram o C. Radorn, um barco de três mastros, com as velas recolhidas. A bordo reinava o silêncio. A seu lado flutuava um outro veleiro de três mastros, em perfeito estado, habitado unicamente por três magn¡ficos cães terra-nova que andavam de um lado para o outro do tombadilho. Nunca mais se ouviu falar nesses navios nem em suas tripulações.



Outro caso famoso foi o do barco carregado de acaju que, com as velas levantadas entrou sozinho no ancoradouro do porto de Cork, na Irlanda. 0 casco não levava nome algum e não havia documentos a bordo. Ninguém reclamou esse navio anónimo. Em 1907, o Quevilly, de Rouen, encontrou os destroçs da escuna Everest Wabster, considerada perigosa. Pelo binóculo, tudo parecia deserto. A proa estava mergulhada no mar, e tinha a coberta lisa, como um batelão. Algumas pessoas subiram a bordo e encontraram, nos leitos que não estavam inundados, a tripulação quase completa , desfalecida, faminta, e sem forças para fazer sinais.


Como ocorre com os seres humanos , alguns navios agarram-se à vida e não aceitam morrer sem lutar até o fim. O Ada Iredale abandonado em chamas , foi encontrado oito meses mais tarde , ainda em combustão . O petroleiro Oklahoma foi cortado em dois. A parte traseira afundou , enquanto a frente continuou flutuando com seu mastro na vertical. Foi encontrado depois ligeiramente inclinado, como um nadador que se prepara para uma longa travessia. Um navio guarda-costas encheu-o de dinamite. Ele mergulhou reaparecendo um pouco adiante. Dobraram a quantidade de dinamite e depois triplicaram sem sucesso. Foi alvejado com um canhão de 12 polegadas. 0 petroleiro tornou a virar e flutuou de dorso para cima. À noite, finalmente, o Oklahoma dignou-se afundar como um soldado exausto que entrega o último sopro. Os marujos corajosos conhecem bem essa resistência inacreditável dos navios.



Em 1951 , Kurt Carlsen, comandante do Flying Enterprise , permaneceu sózinho, durante 13 dias, em cima do costado do navio avariado. No dia 26 de outubro de 1902, o barco de três mastros Tourny, da Marinha francesa, foi assaltado por uma tempestade no golfo de Valencia. Um navio de passageiros salvou a tripulação com excepção de um unico homem. Esse, um marinheiro chamado Denis, escondeu-se voluntáriamente a bordo do navio condenado. No dia 31 de outubro, à noite, o barco da Marinha francesa, Isére , encontrou o Tourny quc flutuava com o costado na agua cerca de 140 milhas ao noroeste de Orã.


A bordo estava um homem que não queria abandonar o navio naufragado. Não podia ser salvo a menos que se atirasse ao mar e o navio de guerra não podia correr o risco de aproximar-se muito. 0 Isére afastou-se e notificou o caso ao porto mais próximo. No dia 8 de novembro, o vapor inglês Syrian Prince tornou a avistar o veleiro flutuando. 0 mar estava calmo. 0 vapor sc aproximou. Denis notificou o comandante que somente aceitava ser rebocado mediante a cláusula no cure , no pay (o pagamento só seria feito caso o reboque fosse bem sucedido). Denis recusou a corda pelo vapor , jogou ele próprio uma corda e assumiu o leme do veleiro . 0 tribunal mar¡timo concedeu-lhe um terço do valor de revenda do navio e de sua carga. Denis ganhou uma fortuna.



Assim , não há motivo para se admirar com as viagens inacreditáveis dos navios-fantasmas. O Dalgonar , deitado no costado , com os mastros e a quilha em cima da água , percorreu mais de 5 mil milhas no Pacifico. O Wyer G. Sargent , abandonado em Halteras , percorreu 6 mil milhas em 18 meses antes de encalhar no estreito de Gilbratar. O Leon White , abandonado junto à costa canadense , foi até a Irlanda , voltou ao Canadá e partiu para as Hévridas , ou seja, 6.800 milhar em dez meses . Os destroços do Fanny E. Wolson , abandonados perto de Charleston, foram vistos um ano mais tarde nos Açores ; o navio naufragado voltou-se depois contra os ventos dominantes no cabo Haiteras e dirigiu-se à Terra Nova , onde desapareceu.


Será que essa explicação basta?
Talvez, mas mesmo assim ocorrem algumas coincidências estranhas. Em 1931 , no extremo norte do Canadá , alguns caçadores construiram barracas nas margens e se prepararam para passar o inverno . Mas certa manhã perceberam , espantados , que o Baychino não estava mais no mar : tinha desaparecido com a carga. Lastimando a mercadoria perdida , os caçadores chegaram por terra a Vancouver, onde ouviram contar que seu barco tinha sido visto nas ilhas Franklin , onde estava ancorado normalmente . Um mês mais tarde, um explorador encontrou o barco , em perfeito estado , no mar de Beaufort , mas não pode retirar as peles . A tripulação de uma escuna , depois alguns esquimós e outros caçadores , tentaram apropiar-se da carga , em uma região mais ao norte . Esses também não foram bem sucedidos . O Baychino continua navegando até hoje em alguma região do oceano Ártico. Como um cão fiel, ele se afasta dos que não são seus verdeiros donos.



0 Rescue --- antigo navio polar --- foi cedido como navio-armazém ao George-Henry , baleeiro em expedição no estreito de Hudson. Em um dia de tempestade , em setembro de 1880 , o Rescue perdeu os mastros e rachou ao meio. A tripulação foi levada para bordo do George-Henry , que prosseguiu sua atividade . Um ano mais tarde , o George-Henry encontrou-se diante do Rescue que não havia afundado e que parecia seguir uma rota , em vez de navegar à deriva . Logo depois ele desapareceu . Nova tempestade , grandes pedaços de gêlo e, de repente, o Rescue surgiu , impedindo a passagem do George-Henry. O baleeiro , cercado pelos icebergs, não pode manobrar. O Rescue avançou em sua direção. Como um fantasma, o Rescue parecia completamente livre em seus movimentos . Ia abalroar o outro navio mas passou a alguns metros da popa. Naquela noite os marinheiros estavam nervosos e discutindo quando, subitamente , o Rescue tornou a surgir . De novo se aproximou do baleeiro e os marinheiros começaram a perder a cabeça . O navio condenado perseguia-os! O comandante só conseguiu tranquilizar a tripulação quando o Rescue desapareceu definitivamente no horizonte, como um animal desesperado que foi abandonado na estrada e que , exausto de correr , se resigna , finalmente , com sua sorte.



Mas os animais abandonados não se tornam, algumas vezes, furiosos como os lobos? No dia 18 de março de 1884, em meio à neblina, o Frigorifique --- primeiro navio equipado com câmaras frigoríficas --- foi afundado pelo Rumney. Este último recolheu a tripulação do navio francês e prosseguiu em sua rota sob a neblina. Bruscamente, um vulto surgiu das sombras e se precipitou sobre o Rumney , como se fosse transpassa-lo. Um vulto idêntico ao Frigorifique, silencioso como um fantasma, embora saísse fumaça da sua chaminé, enquanto que a do Frigorifique. tinha sido vista cheia de àgua. A abordagem foi evitada por um triz. De repente, a estranha massa sombria reapareceu, precipitou-se de novo sobre o navio inglês e, dessa vez, conseguiu atingi-lo. 0 Rumney afundou e o navio-fantasma afastou-se tranquilamente . As duas tripulações, apavoradas ao extremo, abandonaram o navio nas baleeiras. A neblina diminuiu e os homens tornaram a ver o Frigorifique que navegava em direção a leste, depois sudoeste, e finalmente para o sul. O panico se generalizou quando o navio-fantasma rumou em direcção às baleeiras. Todos responderam à chamada, logo não podia haver ninguém à bordo. A baleeira dos marinheiros franceses conseguiu abordar o navio abandonado. Alguns subiram a bordo e encontraram as màquinas em perfeitas condições, "movimentando lentamente a hélice", enquanto o leme, "voltado completamente para a direita" , fazia o navio descrever grandes circulos. Embora fosse posteriormente afundado --- dessa vez para sempre --- o Frigorifique tinha se vingado do seu agressor.



Os mistérios do mar, contudo, nem sempre são tão insondáveis quanto se poderia pensar. Quando o Istrennan, navio-caçador de focas, foi encontrado ao largo do cabo Horne, com todas as luzes acesas, a mesa servida no refeitório para o jantar, era poss¡vel pensar que o misério permaneceria inexplicável. Entretanto, um moribundo contou no hospital de Hamerfest que, juntamente com um bando de outros ladrões, havia assaltado o navio ancorado. Os assaltantes recolocaram tudo no lugar, esfregaram o convés ensanguentado, colocaram os pratos e os talheres na mesa. À noite, acenderam as luzes, suspenderam as velas, levantaram a âncora, dirigiram o navio para alto mar e depois fugiram na escuridão.



Durante muito tempo, os marinheiros sonhavam com a história do Mary Celeste.

No dia 4 de dezembro de 1872, o veleiro Dei Gratia avistou o Mary Celeste ao largo dos Açores. Abordou-o e, para grande perplexidade do capitão Moorhouse, não havia ninguém a bordo: Moorhouse conduziu a Gibraltar um barco considerado abandonado.

Na cabine do imediato, o capitão encontrou o cofre bem como o diário de bordo, cuja última menção dizia:

"24 novembro, 11 horas da manhã , 36º de latitude norte, 27º de longitude oeste, bom tempo".

Uma linha foi pulada. Depois, logo abaixo, com a mesma letra apertada :

"Sucede-nos uma coisa estranha . . . "



Era tudo. 0 mistério permaneceu insondável durante 50 anos. Em setembro de 1872, no porto de Nova York, Moorhouse havia encontrado Briggs, o capitão do Mary Celeste. Moorhouse , em troca de uma parte da carga ceedera a Briggs três homens da tripulação, e os dois comandantes marcaram encontro na ilha de Saint-Michel. Briggs embarcou no Mary Ce!este com sua mulher e um piano que foi o responsável por todo o drama. A viagem do Mary Celeste transcorreu em um clima de brigas e de discussões, sobre tudo entre o oficial Hullock e o marinheiro Venholt. A presença da senhora Briggs contribuiu para aumentar o nervosismo geral. Hulloek, irritado ao ouvir os exercicios de piano da senhora Briggs a um cent¡metro de sua cabeça, atrás de um biombo, mudou o piano de lugar.



Certo dia, o vento cessou bruscamente. Nuvens se formaram a uma velocidade fantástica, o mar sem ondas começou a brilhar como um espelho, e depois o Mary Celeste começou a tremer, a estalar e a dançar frenéticamente. Era uma tempestade inteiramente imprevista. Bnggs desceu a sua cabine para observar o enquanto Hullock deixava correr as adriças . De repente, o drama se desencadeou: sob golpe de uma manobra brusca, a senhora Briggs foi esmagada pelo piano. Louco de dor, Briggs acusou Hullock e Peter Banson o timoneiro, pelo acidente mortal. Hulloe mandou atirar ao mar o cadáver e o piano acompanhado pelo próprio Briggs. Sob as ordens de Hullock, os homens beberam, brigaram e um outro homem caiu ao mar, precisamente o marujo Venholt.



0 navio ancorou em Santa Maria dos Açores, onde Hulock desertou, com medo de ser interrogado por dirigir um navio sem comandante. Toda a tripulação seguiu seu exemplo, com exceção dos três homens cedidos pelo Dei Gratia e do cozinheiro Pimberton. No dia 4, um veleiro apareceu no porto. Era o Dei Gratia. 0 capitão Moorhouse era um homem experiente . 0 navegante que encontra um navio abandonado faz um excelente negócio: não havia ninguém a bordo do Mary Celeste . Ninguém, porquanto os três marinheiros estavam escritos no livro do Dei Gratia.



Sobrava apenas o cozinheiro. Evidentemente ele podia ser atirado do tombadilho. Mas o capitão Moorhouse era um cavalheiro perfeito: propos pagar ao cozinheiro sua passagem de volta para a Inglaterra, contanto que não abrisse a boca sobre o ocorrido Foi ali que, 50 anos mais tarde, um jornalista foi encontra-lo para ouvir sua confissão. Assim terminou um dos mistérios mais ¡nsondáveis do mar.



De 1891 a 1893, os relatórios oficiais dos capitães assinalaram 1628 navios-fantasma. Em 19 12, calculava-se que o número deles aumentava de duzentas unidades por ano . Claro, isso aconteceu há muito tempo. Mas não devemos esquecer que existem verdadeiros câmaras frigor¡ficas para os navios, que são os grandes blocos de gelo. Em 1852 , os navios Terror e Erebius, do explorador John Franklin, reapareceram presos em um iceberg, seis anos depois de terem sido abandonados nas geleiras do arquipélago polar norte-americano. Em 1911 , foi encontrado em perfeito estado o navio de exploração Investigator, abandonado por McLure em 1854.



Em 1911 , um outro navio foi descoberto no Antártico e seus papéis estavam datados de 1848, ou seja, de 63 anos antes. Como alguns mamutes foram encontrados na Sibéria, não nos devemos espantar se, um dia, o célebre Holandês Voador aparecer, com suas velas ao vento.


A menos que, daqui até lá , desiludidos por nossa civilização mecanica, todos esses navios desaparecidos alcancem o famoso "cemitério dos navios perdidos . . ."


Os navios se comportam como certos cavalos levados ao matadouro.


Em 1950, o couraçado brasileiro São Paulo, puxado por dois rebocadores, partiu com destino à Inglaterra onde deveria ser desmantelado. Ferto dos Açores, dois cabos quebraram, o vento leve se transformou em tempestade e o São Paulo desapareceu. Aviões sa¡ram a sua procura pois havia oito homens a bordo : tarde demais, o São Paulo recusou ser demolido.


Durante toda nossa infância ouvimos histórias sobre o "cemitério dos navios perdidos" , situado no mar dos Sargaços . Para os romanc¡stas, esse mar sem correntes, sem ventos, coberto de algas, conserva como uma hidra , tudo o que entra no seu dom¡nio.



Lenda? Claro! Mas mesmo ass¡m o Florence E. Edgett foi encontrado ali dez anos após ter sido abandonado perto das ilhas Sotavento. Outros autores imaginaram que nesse lugar dantesco vivia, em cima de um aglomerado de navios de todas as épocas, reunidos lado a lado, uma comunidade de naufragos de todos os pa¡ses. Afinal, esses barcos desaparecidos levavam mulheres a bordo e, em 1884, foi encontrado nesse alucinante mar dos Sargaços um navio tão antigo que não era poss¡vel ler seu nome no casco . . . Mas esse barco arcaico transportava cadáveres que não tinham nada de arcaico. Assim, a lenda é muitas vezes confirmada pela realidade. A realidade pode desfazer a lenda, mas essa última é , muitas vezes, reforçada pela primeira. Tudo é lenda antes de ser conhecido. Nossos deuses morrem lentamente, mas outros deuses mais jovens os substituem. Talvez, um dia, percebamos melhor a verdade do poeta:

Objectos inanimados, tendes por ventura uma alma
Que se une à nossa alma . . .


Para quem gosta de aventuras , o cemiterio dos navios perdidos é também o cemitério dos tesouros. Os navios afundados na corrente do Golfo e na corrente norte-equatorial navegam sob a àgua, até a altura do Taiti, depois tomam a direcção do norte, entram no mar dos Sargaços e encontram um banco de areia onde encalham.



Depois de muitos séculos sobram apenas as armações de aço e ouro. Em Puerto Placa, dizem que o banco de areia está situado um pouco acima do Trópico do Cancer, não muito distante dos 68º de longitude leste. Talvez não se encontre ali o tesouro do Banco de Prata, muito menos um navio-fantasma, mas com toda certeza é um bom lugar para o aventureiro encontrar-se a si mesmo.



Extraido de um texto de Camille du Val
publicado por Admin às 09:35
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

O naufrágio do Jakob Maersk. (Entrada do Porto de Leixões)

"lembra-se desta imagem?"

Nome: Jakob Maersk
Data de Naufrágio: 29 de Janeiro de 1975
Local: Entrada do Porto de Leixões - Portugal
Navio: Petroleiro de 84000 toneladas
Data de construção: 1966
Bandeira: Dinamarquesa
Carga: Crude
***
*****

No dia 29 de Janeiro de 1975, ás 12:30h, o petroleiro Jakob Maersk, enquanto tentava entrar no Porto de Leixões, embateu numa rocha. Segundos após o embate deu-se uma explosão na casa das máquinas, o petroleiro incendiou-se e partiu-se em três.
As zona central e a popa afundaram-se quase de imediato tendo a proa ficado a flutuar, a qual viria dar à costa dias depois tendo lá ficado durante anos. As explosões partiram todos os tanques e resrvatórios do petroleiro, tendo o crude ficado espalhado por uma grande extensão. Uma parte do crude ardeu enquanto que a restante veio dar à costa. Durante alguns dias, chamas do crude que ardia tunham mais de 100m de altura e o céu do Porto ficou escurecido pela grande nuvem de fumo preto.


7 dos 17 tripulantes tiveram morte imediata, uma vez que se encontravam na casa das máquinas. Alguns dos habitantes de zonas próximas do acidente foram para ao hospital devido ao fumo. De imediato foram feitos vôos de reconhecimento sobre o local do acidente mas as chamas que duraram dias não permitiam qualquer tipo de acção de recolha do crude que estava no mar. A colaboração entre o Ministro das Pescas, Marinha, exército, o armador (The Shell Oil Company) e parte da população local, permitiu que agissem depressa evitando uma situação mais grave. Cerca de 50000 toneladas de crude arderam no mar, cerca de 25000 toneladas ficaram à aderiva no mar e cerca de 15000 toneladas deram à praia.

Características do Mergulho:


-Tipo de megulho: naufrágio
-Experiência: CMAS *
-Vida marinha: Pouca
-Profundidade média: 12m
-Profundidade máxima: 15m
-Corrente: inferior 2 nós
-Visibilidade: inferior a 5m
-Perigos: tráfego de barcos e redes
-Coordenadas GPS: Lat. 41° 10.178' N/ Long. 8° 42.066' W



Bibliografia:

www.le-cedre.fr/uk/spill/jakob/jakob.htm
www.wannadive.net
www.fotopt.net

publicado por Admin às 10:53
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Mapas Antigos da Cidade do Porto. (1809, 1833, 1844)

A actual «cidade invicta» é muito diferente daquilo que foi num passado, por vezes não muito distante... Em baixo vemos mapas da cidade do Porto com os conteúdos e dimensões das referidas datas.
Nota: Clique nas imagens para AMPLIAR OS MAPAS se os desejar guardar no seu computador.
A cidade do Porto tal como o era em 1809.
Planta da cidade do Porto datada de 1833.

Na Planta abaixo temos:
«Planta da cidade do Porto contendo o Palácio de Christal, nova alfandega e diversos melhoramentos posteriores a 1844, por F. Perry Vidal»
Nestas 3 Plantas, com pouco tempo de intervalo entre as datas da sua elaboração, póde-se no entanto notar uma evidente evolução da Cidade tanto em dimensões como em organização Urbana.
publicado por Admin às 10:17
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Foral da Cidade do Porto de 1120 e outros.

(clique no texto abaixo para aceder ao documento)

«Foral dado ao Porto por D. Hugo; e Doações que lhe fez a Snr. D. Tereza e seu filho Snr. D. Afonso Henriques: e também A Carta de Couto da Igreja de Cedofeita e confirmações posteriores da mesma tudo ordenado , traduzido, annotado, e offerecido aos habitantes do Porto» , Typographia da Viuva Alvares Ribeiro e Filhos, Porto, 1822.
publicado por Admin às 10:05
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Sábado, 19 de Setembro de 2009

A Quinta de Santo Ovídio - Cidade do Porto.

«Após cinco meses de noivado casaram-se Eça de Queirós e D. Emília de Castro Pamplona (Resende), no dia 10 de Fevereiro de 1886, no Oratório particular da Quinta de Santo Ovídio no Porto, pertencente à família da noiva, já desaparecido em virtude da abertura da rua Álvares Cabral, que liga a rua da Cedofeita ao Campo Mártires da Pátria.»

Quinta e Palácio de Santo Ovídio (Séc. XIX), Des., Joaquim Cardoso, In Edifícios do Porto em 1833. Álbum de desenhos, Porto 1987.

Situava-se tal quinta ao cimo da actual Rua de Alvares Cabral...
publicado por Admin às 20:24
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Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

O Mosteiro de São Bento de Avé-Maria.

O Mosteiro de São Bento de Avé-Maria foi um edifício, demolido no final do século XIX, que albergou freiras beneditinas, localizado na cidade do Porto, em Portugal.
No seu local foi construída a actual Estação Ferroviária de Porto-São Bento, no início do século XX.
História

No início do século XVI, mais precisamente em 1518, o rei D. Manuel I, que no ano anterior outorgara foral ao Porto, mandou construir à custa de sua fazenda, o Mosteiro da Avé Maria ou da Encarnação das monjas de São Bento, dentro dos muros da cidade, no local chamado das Hortas do Bispo ou da Cividade.

Desejando o rei que os Mosteiros das Religiosas se transferissem dos montes para as cidades, neste foram recolhidas as monjas dos Mosteiros de Rio Tinto, Vila Cova, Tarouquela e Tuías, no dia 6 de Janeiro de 1535. No século XVI recebeu algumas freiras de um extinto mosteiro em Macieira de Sarnes. Foi a sua primeira abadessa D. Maria de Melo, monja de Arouca e, ao mesmo tempo, regedora do Mosteiro de Tarouquela.

Vários testemunhos referem-se ao Real Convento como uma maravilha em decoração e magnificência, deduzindo-se ter predominado inicialmente o estilo manuelino. Deduz-se, pois foram muitas as alterações e aditamentos qua a igreja e o convento sofreram durante os anos, a última motivada por um incêndio em 1783, que ao tempo da demolição apenas restava um arco manuelino da traça primitiva.

Com a afirmação do Liberalismo no início do séc. XIX, este regime, depois de extintas as ordens religiosas, confiscou os seus bens por decretos de 1832 e 1834, determinando que estes passassem para o Estado após a morte da última religiosa. No caso do Mosteiro da Avé Maria, esta terá falecido em 1892, ficando as instalações devolutas. Contam-se várias histórias de que, em certas noites, ainda é possível ouvir as rezas da monja a ecoar pelos corredores das alas da estação!
A demolição dos claustros inicia-se cerca de 1894 e a da igreja processa-se entre Outubro de 1900 e Outubro de 1901. As ossadas das monjas foram recolhidas numa catacumba mandada construir no cemitério do Prado do Repouso pela Câmara Municipal do Porto, em 1894.
Muito do seu espólio perdeu-se por altura da demolição, incluindo uma grande variedade de azulejos-tapete, alguns dos quais foram recolhidos por Rocha Peixoto. O que resta do espólio pode apreciar-se no Museu do Seminário do Porto (talha), na Igreja de São João das Caldas em Vizela (retábulo-mor da igreja), Paço de S. Cipriano em Guimarães (azulejos do claustro), no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa (báculo da Abadessa) e no Mosteiro de Singeverga em Roriz (cibório com pedras finas).

Em baixo podemos ver fotografias do Mosteiro de São Bento de Avé-Maria exactamente come ele era antes de dar lugar a actual conhecida estação de S. Bento.
Um tesouro para sempre perdido.

A fachada da Igreja...
Vista da rua da Madeira (em frente a direita vemos a ainda existente Práça da Liberdade, ao fundo e a meio a Torre dos Clérigos).

Em baixo uma vista interior
"A roda" do Mosteiro onde eram deixadas crianças rejeitadas pelos pais.
Uma imagem desoladora!!! A destruição do Mosteiro para dar lugar a estação de comboios.
publicado por Admin às 22:28
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Quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

SANTA CRUZ DO BISPO.

- Santa Cruz do Bispo, cuja toponímia original seria Santa Cruz felgueiras, pois fez parte do Julgado da felgueiras até 1835, tendo ainda sido designada como Santa Cruz de Leça e Santa Cruz de Riba Leça, por influência de D. Rodrigo Pinheiro, insigne humanista e Bispo do Porto no século XVI, ligado ao apogeu arquitectónico e paisagístico de Santa Cruz, com justiça, se ficou a chamar do Bispo.
A Quinta de Santa Cruz de Riba Leça, que era todo o vasto terreno doado à Sé do Porto pela Infanta Santa Mafalda, foi transformado num recanto maravilhoso de grande imponência que foi a Quinta dos Bispos e actual Colónia Penal.

Assim, transformou-se, de novo, o aspecto da Quinta, desta vez sob a influência de Nasoni.
De toda a beleza arquitectónica, destacamos o seguinte: entrada principal – grandioso portão artístico de pedra, trilobado de cantaria encimado pelas armas do bispo D. José Maria Fonseca e Évora que, em 1750 decidiu empreender reformas nesta imponente e tranquila instância de repouso que se ergue no Largo, junto da Igreja, considerado monumento de interesse nacional; vários portões laterais de granito (cinco), que rodeiam a Quinta; edifícios em pedra; o chamado Palácio D. Mafalda; belíssimos fontanários de pedra, dispersos pelos arruamentos da Quinta, etc.

Em 1623 contavam-se entres as capelas da freguesia a Capela N. Sra. da Luz e dos Anjos (que se situava dentro da quinta e que talvez constitua a razão pela qual a estrada principal da Colónia é conhecida como Av. Dos Anjos), A Capela de Santo Isidro e a Capela N. Sra. da Guia que se situava junto da Igreja Paroquial embora num sítio ligeiramente diferente, pois aquele onde hoje se ergue, data da reconstrução levada a cabo pela Veneranda Viscondessa de Santa Cruz do Bispo, D. Maria Dias de Sousa, em 1890.
Descendo de família pobre e não sabendo escrever, foi-lhe o título de Viscondessa atribuído em 1892 por El-Rey D. Carlos, como reconhecimento e consagração oficial da sua generosidade e qualidades de carácter, cuja nobreza se reflectiu no contributo prestado à colectividade.
Falecida com 82 anos de idade, em 12 de Março de 1899, jaz o seu corpo em sepultura própria na Capela de seu nome, no cemitério Nº.1 da Freguesia a cuidado perpétuo da Junta.



Nesta Capela está uma imagem de N. Sra. que merece apreciação quanto mais não seja pela sua antiguidade.
Em 1623 existiam ainda as seguinte Capelas: N. Sra. do Livramento ou das Candeias ou de S. Brás e a Capela do Mártir S. Sebastião.
A Igreja matriz e paroquial, com esbeltas linhas arquitectónicas, foi demolida e reedificada entre os anos 1756 e 1766, pelo Bispo do Porto, D. Fr. António de Sousa, cuja pedra de armas foi representada na sua frontaria.
Treze anos depois em 1769, tendo sido atingida por um raio, necessitou de importantes obras de restauro.




No monte de S. Brás, podemos ver a famosa estátua do "Homem da Massa", peça de grande valor Histórico-Cultural, e que sendo encontrada entre as Capelas de Nª. Sra. do Livramento e a do Mártir S. Sebastião, por volta do ano de 1935 terá sido deslocada para o cimo do Monte.

A estátua em granito é esculpida apenas dos joelhos para cima e, atingindo a altura de uma pessoa, está profundamente mutilada nos olhos, nariz e boca, faltando-lhe ainda os dois antebraços. A seu lado, encontra-se uma figura de um qualquer animal, talhado no mesmo granito.

Diz a lenda que quem atravessasse o misterioso monte de São Brás, coberto de densa vegetação, para sempre desapareceria. Certo dia, um audacioso rapaz decidiu atravessa-lo e munido de uma "maça" de trabalhar o linho, meteu-se a caminho. Algum tempo depois e talvez resultado de uma luta mortal, o seu corpo foi descoberto, junto do de um estranho animal selvagem semelhante a um leão. Para assinalar o local onde se encontraram os corpos foram esculpidas as imagens que ainda hoje ali se encontram.

No entanto a hipótese que parece ter mais bases científicas, aponta para que essa famosa estátua pertença a vestígios arqueológicos Romanos existentes na zona, e que representará Hércules, ou seu filho Amato.
publicado por Admin às 15:20
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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

Avistamentos de “Pássaros-Trovão” (Thunderbirds) nos EUA.

A rara fotografia de um “Pássaro-Trovão” abatido no Arizona, em 1890

Nos últimos anos têm surgido alguns novos testemunhos de pessoas que viram o mítico “Pássaro Trovão”, nos EUA, mais especificamente no Alaska (ver AQUI e AQUI)… Na verdade este “mito” é dos mais fascinantes da actualidade, ainda mais do que o Bigfoot ou do Yéti. Embora o primeiro relato, de 1890, descreva uma espécie de pterodáctilo, com asas sem penas e uma cabeça semelhante à de um crocodilo, fazendo acreditar numa sobrevivência deste dinossauro do Jurássico até pelo menos os finais do século XIX, a maioria dos testemunhos mais recentes descrevem uma criatura substancialmente diferente… Com efeito, os avistamentos realizados a partir de meados da década de sessenta apontam mais para um pássaro de grande envergadura de asas, quase do tamanho de um pequeno avião.

Os nativos americanos tinham na sua mitologia uma criatura a que chamavam “Pássaro-Trovão” (Thunderbird), uma designação que continou até aos dias de hoje e que serve agora para denominar estes estranhos avistamentos. No passado, houve pássaros com dimensões semelhantes às descritas nestes relatos, como Argentavis magnificens com sete metros de envergadura de asas e, claro, o já citado Quetzalcoatlus northropi. que podia chegar aos 20 metros de envergadura…. Portanto é teoricamente possível haver tais criaturas nos ares… Alguns criptologistas como John Keel, associaram os avistamentos a tempestades. Parece claro, que aqui, como quanto aos relatos de avistamentos de criaturas humanoides estamos perante precisamente o mesmo dilema: existem testemunhos bastantes e suficientemente credíveis para se saber que estes relatos correspondem a algo, a algum tipo de criatura real e concreta…
Serão avistamentos de pássaros de grandes dimensões como águias, condores ou abutres, que sob certas ilusões de óptica parecem muito maiores do que efectivamente são? Parece certo que não existem comunidades suficientemente extensas destas criaturas, já que os seus avistamentos são tão raros e nunca foi encontrado um ninho, ovo ou carcassa… (e eles morrem, certo?).
Mas sendo assim… Será que a associação com as tempestades – que aliás é consentânea com o mito indígena está na raíz desta explicação? Será que em certas condições, um trovão, mais ou seus cem milhões de volts podem… abrir portais para dimensões paralelas e que estas criaturas, nessas condições ficam entre nós durante algum tempo, para depois… voltarem para onde vieram? Sei que é uma mera especulativa sem sustentação… Mas…

Fonte: Answers.com
publicado por Admin às 16:10
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